Copom Hawkish
BC tem discurso agressivo e, sem alívio do discurso até lá, corte de juro deve ficar para março
As perguntas que os clientes da Velis mais tem feito nesse final de ano são: 1 ) “e essa eleição ano que vem?” e 2) “quando os juros começam a cair?”.
Na ausência de uma resposta científica para algo bastante imprevisível na primera pergunta, eu ouso responder a segunda com base na própria comunicação de quem decide pela queda ou não da Taxa Selic.
Achei o tom do comunicado do Copom dia 11 e da ata de ontem (16) agressivos.
O pano de fundo da economia brasileira, convenhamos, é mais benigno do que no início de 2026.
A atividade econômica doméstica segue em trajetória de moderação, como o próprio Comitê reconhece ao mencionar a desaceleração do PIB e a perda de fôlego do consumo das famílias.
Em 2024, estávamos com um hiato de produto positivo, termo técnico que sugere que a economia acelerava a uma velocidade que pressionava ainda mais a inflação.
Pelas últimas divulgações do IPCA e outros índices de preço relevantes, a inflação cheia e as medidas subjacentes apresentaram algum arrefecimento, ajudadas por um câmbio mais apreciado e por um comportamento mais benigno das commodities, com destaque para a queda recente do petróleo.
Inclusive, não duvida da queda no preço da gasolina agora em janeiro.
No ambiente externo, apesar das incertezas, o cenário hoje é menos adverso do que há alguns meses, com condições financeiras globais relativamente favoráveis e um diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos ainda elevado, na faixa de 3,5% a 3,75% versus uma Selic de 15% por aqui.
Ao meu ver, esses vetores de curto prazo não apontam para uma reintensificação das pressões inflacionárias.
Ainda assim, a ata do Copom optou por um registro duro.
Em diversos trechos, o Comitê reforça que, em um ambiente de expectativas desancoradas, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado.
A expressão “período bastante prolongado” aparece de forma recorrente, quase como uma âncora retórica, deixando claro que a estratégia central segue sendo a manutenção do nível corrente da taxa básica de juros.
Ao meu ver, esse comunicado duro ainda deriva de uma tentativa do BC se provar independente em um contexto em que a maioria do colegiado foi indicada pelo governo atual e o próprio governo, esporadicamente, acusa o BC de manter as taxas de juros elevadas demais.
A ata coloca que “os vetores inflacionários permanecem adversos, especialmente a inflação de serviços”, ainda resiliente em função de um mercado de trabalho descrito como “bastante apertado”, apesar dos sinais incipientes de desaquecimento.
O diagnóstico do cenário da ata parece absolutamente sóbrio e condizente com a realidade, mas a comunicação dá a entender que, na visão deles, o paciente necessita de uma dose ainda bastante amarga do remédio.
O Copom descreve na ata a transição desde o ciclo de alta, passando pela interrupção para avaliação, até a conclusão atual de que o patamar de juros é adequado.
Até aqui, ok.
O problema é que, ao fazer isso, a ata evita qualquer sinalização minimamente clara sobre os próximos passos. Não há menção explícita a um gatilho para o início do ciclo de cortes, nem indicação de que janeiro (próxima reunião) esteja efetivamente no radar.
Ao contrário, o Comitê faz questão de frisar que “seguirá vigilante e que não hesitará em retomar o ciclo de alta caso julgue apropriado”, reforçando uma assimetria comunicacional que pesa mais para o lado da cautela do que para o da flexibilização.
Mesmo em um contexto de economia menos aquecida, inflação em processo de desinflação gradual, petróleo em queda e diferencial de juros confortável, a ata opta por reforçar a ideia de firmeza, mas à custa de certa ambiguidade.
Há convicção na estratégia atual, mas não esclarece se essa convicção já comporta o início de um ciclo de cortes em janeiro ou se a preferência é ganhar ainda mais tempo.
Para quem esperava uma comunicação com alguma projeção mais clara de corte, o documento soa agressivo no tom e não nos dá qualquer sinalização.
Se cuidem e fiquem bem.
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Excelente leitura!